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Como está a situação atual da Educação Brasileira?

30/04/2010

O Centro de Cultura e Eventos da UFSC foi palco do Seminário sobre a Situação Atual da Educação Brasileira, que aconteceu no dia 23 de abril. O evento, promovido pelo CIEE - Centro de Integração Empresa-Escola reuniu cerca de 400 participantes e levou à discussão pontos importantes, como falta de planejamento, inclusão social, preparação da mão-de-obra, importância do ensino técnico-profissionalizante, além de apresentar algumas alternativas para garantir mais qualidade na área.
Grandes nomes da educação no Brasil participaram do debate, dentre eles, Paulo Nathanael Pereira de Souza - presidente emérito do CIEE/SP e membro da Academia Paulista de Letras, Paulo Delgado - deputado federal e ex presidente da Comissão de Educação da Câmara dos Deputados, Mércio Felsky - presidente do CIEE/SC, Ruy Altenfelder Silva - presidente do Conselho Diretor do CIEE/Nacional e presidente do Conselho de Administração do CIEE de São Paulo, Álvaro Prata – Reitor da Universidade Federal de Santa Catarina, Silvestre Heerdt - secretário da Educação de Santa Catarina, Arnaldo Niskier -  Presidente do Conselho de Administração do CIEE/RJ e membro da Academia Brasileira de Letras  e  Eliezer Moreira Pacheco - secretário de Educação Profissional e Tecnologia do MEC. (Confira o que eles disseram nas próximas páginas).
A abertura do seminário foi feita pelo presidente do CIEE Nacional, Ruy Altenfender Silva, que já no início  provocou uma reflexão. “Está mais do que na hora de pensar em política e soluções definitivas e não paliativas para a educação”. Destacou ainda a grande preocupação com a qualidade de ensino, diante do alto índice de reprovação. “80% dos estudantes reprovaram no exame da OAB e 56% dos alunos do sexto ano de Medicina em São Paulo também foram reprovados porque não souberam responder questões básicas, como diagnóstico de apendicite”, declarou, frente à indignação da platéia formada por professores, estudantes e profissionais da educação. Dentre eles, pessoas com deficiência, que puderam contar com o apoio dos intérpretes da língua de sinais, traduzindo todo o contexto. Alguns acadêmicos também aproveitaram o seminário para reivindicar melhorias na estrutura das salas de aulas da universidade federal.
Além de ficarem frente a frente com grandes educadores, os participantes ainda ganharam como cortesia, ao final do evento, o livro “Educação, Estágio & Trabalho”, de autoria dos escritores Arnaldo Niskier e Paulo Nathanel.

O QUE ELES DISSERAM...

Ruy Altenfelder Silva
Presidente do CIEE Nacional e presidente do Conselho de Administração do CIEE de São Paulo

“Há lados positivos e também problemáticos na educação. Destaco como lado positivo a quase universalização do ensino fundamental, elogiável pela quantidade, mas ainda passível de melhoria na qualidade. É justo elogiar a distribuição gratuita de merenda e uniforme escolar, entre outras medidas. Os efeitos da proliferação das faculdades preocupam diante dos altos índices de reprovação. A boa formação dos alunos depende de professores capacitados e motivados. Então, o que pensar da expansão dos cursos de pedagogia, que saltaram de 1.237 para 2.295, com aumento de 85% no período 2002-07? Seria ótimo indicador não fosse o Exame Nacional de Desempenho do Estudante (Enade) 2009, segundo o qual o número de cursos de pedagogia ruins subiu de 172 (28% do total) para 291 (30,1%). Esses cursos congregam 71 mil dos 284 mil alunos de pedagogia, do qual sairão os futuros professores, coordenadores e diretores das escolas brasileiras.
As deficiências talvez não se devam exatamente à sempre alegada falta de verbas, mas, sim, a um conjunto de fatores, incluindo a falta de competente planejamento para gastá-las bem. A questão não é falta de recursos, mas a ilusão de que se podem resolver problemas só com dinheiro.
Precisamos promover a preparação integral (teórica e prática) de seus alunos. Existem, pelo menos, dois caminhos para escapar dessa armadilha. O estágio - ao fim do período de treinamento prático, 64% dos estagiários assinam contratos como funcionários efetivos. A segunda estrada passa pela feliz expansão da rede de educação profissional que espera fechar 2010 com mais de um milhão de alunos em salas de aula.
Está mais do que hora de se pensar em política e soluções para a educação desvencilhada de vieses ideológicos, corporativistas ou experimentalistas, e voltada para o interesse maior do país e das novas gerações de brasileiros que, sem a urgente correção de rumo, correm o risco de perder o trem da história.

Mércio Felsky
Presidente do CIEE/SC

“Como empresário, acredito que o maior desafio é a ampliação da qualidade de mão-de-obra. Nenhum país do mundo se desenvolve sem uma boa base da educação. Os fundamentos da economia mundial e do Brasil nos remetem a um forte crescimento econômico. Estou muito convencido de que o apagão da mão-de-obra já está presente e o Brasil está importando profissionais qualificados, o que não é um bom sinal. O crescimento está aí e é a oportunidade única do país corrigir discussões e acontecimentos. É preciso fazer algo urgente para que a nossa juventude não fique desamparada e este evento é um exemplo, junto com o CIEE, uma entidade social com 46 anos de história que ampara o adolescente aprendiz e o jovem estagiário. Vocês, jovens, são o nosso futuro.”

Silvestre Herdt
Secretário de Educação de Santa Catarina

A integração entre empresa – escola é o que dá sentido à educação. Todos nós estamos percebendo o avanço da ciência e tecnologia e as grandes transformações. Percebemos que o emprego traz uma exigência permanente de atualização. A mão-de-obra especializada é cada vez mais requisitada e níveis maiores de formação são exigidos. Percebemos que cada vez mais está reservado aos homens ofícios de inteligência e mais níveis de formação são necessários em nosso dia-a-dia: formação geral, técnica, especialização e humanística. É preciso ter sensibilidade, visão, criatividade adaptabilidade e preparo para a mudança diária.
Nós temos alguns desafios permanentes pela frente. Não podemos ficar passivos diante da idéia de conquistar um diploma apenas por costume. Precisamos ter consciência de que, para poder sobreviver e ter espaço na sociedade, devemos transformar o ir para a escola em um ato mais consciente. Um ato visando à preparação do futuro vencedor, com mais responsabilidade. Devemos refletir diariamente que escola queremos. A escola que ensina ou a escola onde se aprende? O ensino médio tradicional não garante empregabilidade, nem prepara para ofício algum. O ideal seria oferecer uma formação geral e suficiente para que cada um pudesse desenvolver seu próprio talento, mas isso não acontece. “Precisamos formar uma corrente em busca de uma escola melhor, que esteja a serviço da comunidade.”

Paulo Delgado
Professor e Deputado Federal

“Este é o tempo de ajustarmos a oferta de qualificação com as demandas do mercado. A maioria dos jovens na faixa dos 16 e 17 anos encontra dificuldades na escolha de uma profissão. Isso, devido até mesmo a inexperiência própria da idade, mas também ao desamparo que é decidir sozinho.
 É necessário enfrentar a baixa escolaridade e a falta de capacidade profissional de nossos jovens.  
Nesse contexto ressalta-se a importância dos agentes que fazem a interface entre a educação, a prática através do estágio bem orientado e o futuro mercado de trabalho que os jovens irão enfrentar como o CIEE o faz. A Lei de Estágio precisa de aperfeiçoamento. Se não agirmos com rapidez e eficiência na preparação desses jovens para o futuro mercado de trabalho, corremos o risco de enfrentarmos o problema da importação de mão-de-obra, como já praticam ou alertam alguns especialistas do setor industrial e de grandes empresas como a Petrobrás, Vale e Embraer.
Para crescer de maneira sustentável e mais cômoda é urgente contribuir e participar da velocidade da mudança mundial. E gastar mais com o futuro, conferindo posição dominante à pesquisa, à cultura científica e ao sentido prático de estudar para melhor trabalhar e viver. “E assim poder dizer: não me pergunte o que penso, pergunte o que faço: pelo que faço você descobre o que penso.”

Álvaro Prata
Reitor da UFSC

Vivemos um momento ímpar em termos históricos. O Brasil deixa de ser um país do futuro, para ser um país do presente. A nação está mais madura e é a nossa oportunidade de nos firmarmos como nação e país. Os mais otimistas enxergam que o Brasil pode se tornar a quinta economia do mundo em 2013 e isso não é pouco.  Olhamos para o nosso país e percebemos que há muito que fazer. Há quatro grandes desafios: Inclusão social devido à diversidade, educação, infra-estrutura e questões tecnológicas.
Nossos índices da educação seguem baixos. Apenas 13% de jovens entre 18 e 24 anos freqüentam o ensino superior. Isso representa que 87% destes jovens deveriam estar na faculdade, mas não estão. Temos que incluir essa população. O Brasil possui 6 milhões de estudantes, 2.500 instituições de ensino superior e embora tenhamos 200 disciplinas, a concentração está em poucos cursos. 50 % estão matriculados  em cinco cursos e mais de  30% em  apenas dois. Precisamos reestruturar nossa educação superior, ampliar o acesso aos estudantes e intensificar as políticas de ações afirmativas. Muito tem sido feito e há alguns exemplos a serem destacados. Em Santa Catarina comemoramos neste ano o início das aulas da segunda Universidade Federal: A Universidade Federal da Fronteira Sul – instituição que está preocupada com a inclusão. É preciso ainda valorizar a educação básica em todos os aspectos. Este é um grande desafio nosso. “Queremos pessoas educadas, críticas e livres, que pensem por si só, que possam fazer suas escolhas e perseguir suas vocações e com isso transformar nosso país.”

Eliezer Moreira Pacheco
Secretário de Educação Profissional e Tecnologia do MEC

“No atual governo, o orçamento destinado à educação passou de 19 bilhões para 59 bilhões, ou seja, triplicou. Desenvolvemos uma série de políticas, dentre elas, a ampliação do ensino fundamental de oito para nove anos, o FUNDEB, que estabelece financiamentos da creche ao ensino médio e o piso nacional para os docentes. Sem professor valorizado não há educação de qualidade.
A educação deve ser vista de uma forma sistêmica. Para a expansão na educação profissional é necessário organização total do sistema, passando pela alteração da LDB – Lei das Diretrizes e base da Educação, que não fazia muita referência à educação profissional. A supressão da vedação da expansão da rede federal porque levamos mais de um ano para mudar a lei que proibia isso e a reforma do Sistema S, a fim de restabelecer a gratuidade. Para este ano, as metas são de abertura de 53% de vagas do SENAI e 25% do SENAC, ou seja, mais cursos técnicos gratuitos para os jovens. Também precisam ser revistos os Catálogos dos Cursos técnicos e tecnólogos, a regulamentação do estágio, resgatando a dimensão pedagógica e a articulação da EJA, restringindo a evasão com uma perspectiva profissional.
De 1909 a 2002, foram construídas 140 escolas técnicas no país e ainda este ano a meta é entregar 214 novas unidades. Nós investimos na expansão da rede federal 1,25 bilhão, mas, por mais que cresça, não tem a capilaridade necessária para todo território nacional. Em Santa Catarina, devemos investir em torno de 60 milhões. Dinheiro não é o problema na educação hoje. O problema é a falta de projetos. Desafio enfrentado pelos estados e municípios, principalmente no norte e nordeste”.

Paulo Nathanael Pereira de Souza
Presidente emérito do CIEE/SP

“Hoje, o Brasil enfrenta dois grandes problemas no campo da educação. Como educar na era do conhecimento e como educar na passagem do país do terceiro para o primeiro mundo. É preciso encontrar formas de educar para satisfazer esses dois caminhos, que hoje condicionam todo o acontecer brasileiro. No mundo contemporâneo não há mais lugar para os despreparados intelectualmente. Vivemos a era do saber em que a informação passou a ser a ferramenta base para a sobrevivência dos indivíduos e das nações. Estamos vivendo muitos “fins” e isso nos traz insegurança. A saída está no conhecimento e na sua aplicação para a solução dos nossos problemas. Adquirir saber e ter capacidade para aplicá-lo no dia a dia passa a ser o desafio do nosso tempo. Há muitos ganhos quantitativos nas estatísticas de matrícula de todos s os graus de ensino no Brasil. Vimos que as verbas para a educação brasileira cresceram extraordinariamente nos últimos anos e que os números de vagas em todos os graus de ensino também encontraram fatores multiplicativos. Porém, não é suficiente que isso ocorra para dizermos que a nossa educação está muito melhor.
É preciso pensar na qualidade, pois temos um problema sério. Para haver qualidade precisa haver referência teórica que permita dimensionar essa qualificação. Para começar este processo temos que ter uma idéia muito precisa do que queremos da educação, mas antes precisamos saber o que queremos do país.” 

Arnaldo Niskier
Presidente do CIEE/RJ e Membro da ABL

“Estive a poucos dias na Universidade de Estocolmo que possui 60 mil alunos com ensino inteiramente gratuito. Lá, o reitor revelou que os acadêmicos se preparam fundamentalmente para três elementos nucleares.  A primeira preocupação da universidade é com a formação de cientistas, a segunda é com a formação de pesquisadores e a terceira é com a formação de professores. Todos muito bem pagos, pois entendem que esta é prioridade do país.  Quando olhamos para esta realidade nos dá uma vontade maior ainda de lutar. Diante das falácias que nós temos recursos demais para a educação, vale ressaltar que o Brasil investe aproximadamente 4% do PIB em educação. É uma quantia impressionante, mas é rigorosamente insuficiente. Não há elementos de planejamento para esclarecer se essa quantia é suficiente para enfrentarmos os desafios da educação brasileira com 14 milhões de analfabetos, com carência absoluta da educação infantil, educação básica, incluindo o ensino profissional. Os grandes países que cresceram nunca aplicaram menos de 7% do seu PIB em educação. Deveríamos manifestar nosso inconformismo com isso, como também devemos manifestar a nossa vontade muito grande de que esses recursos sejam utilizados de modo adequado. Tenho o privilégio de dirigir o CIEE do Rio de Janeiro, que tem 25 mil estagiários e 2.300 aprendizes. O CIEE já deu uma grande contribuição à nossa população economicamente ativa de 10 milhões de brasileiros que foram capacitados adequadamente pela instituição. Outro ponto é o problema da língua portuguesa. É preciso que se priorize na universidade esta questão. Também é necessário valorizar a importância do ensino técnico/profissional, pois ainda há preconceito e resistências neste aspecto. Devemos temer o apagão da mão- de -obra. No Rio de Janeiro existem grandes projetos em desenvolvimento, mas faltam técnicos. A Companhia Siderúrgica do Atlântico acaba de importar 600 técnicos chineses. A nossa obrigação patriótica não é resolver os problemas da China, mas dos nossos jovens que estão se formando e não estão tendo a oportunidade de emprego.”


DEPOIMENTOS DE PARTICIPANTES 
 
“O Seminário, pela diversidade e qualidade das representações presentes, foi também uma antecipação das reflexões sobre as grandes questões educacionais que virão à tona durante os debates que acontecerão na campanha eleitoral que se avizinha. Por exemplo: é possível priorizar todos os níveis educacionais e todas as áreas de conhecimento para o desenvolvimento do Brasil? Ou, em tempos de recursos escassos, precisaremos optar por um nível ou área de conhecimentos específicos? Eis aí uma das questões centrais para o futuro da nossa nação.”

Mauri Luiz Heerdt
Pró-Reitor de Ensino – Unisul

“Participar do seminário foi um momento de grande valia. Pude conhecer e apreciar as ações e opiniões de homens envolvidos com a educação no Brasil tema de grande relevância dentro no cenário atual do país. Acredito que as discussões levantadas estimulam a pensar sobre as políticas públicas desenvolvidas pelo atual governo, os motivos de sua criação, os avanços e assim podemos criar visões críticas em relação a essas ações”.

Tiago Coimbra Nogueira
Acadêmico da UFSC e Intérprete de Língua de Sinais

“O evento contribui e coloca na mesa uma questão básica da educação e resgata a cidadania. A condição para o desenvolvimento do país passa pelo lado tecnológico. Não existe desenvolvimento dos países emergentes sem que haja uma formação de 1º e 2º grau de qualidade. A nossa formação é péssima. As escolas técnicas federais de formação teórica e prática compensam a deficiência de qualidade no ensino de 1º grau, ou seja, elas complementam o ensino.” 

Prof. Jesiel de Marco Gomes
Coordenador de projetos da FAPESC – Fundação de Apoio à Pesquisa Científica e Tecnológica do Estado de SC 
 

“As palestras foram muito interessantes em relação ao reposicionamento do mercado de trabalho. Destaque para a importância dos agentes de integração na colocação dos alunos no mercado de trabalho para que obtenham um crescimento maior do que aquele oferecido em sala de aula.”

Alceu de Oliveira Júnior
Coordenador dos cursos de Direito da Grande Florianópolis - UNIVALI